sexta-feira, 19 de maio de 2017

O PAPA FRANCISCO!



Quando começaram a ser conhecidos os primeiros contornos da visita do Papa Francisco a Portugal, comecei a dar uma parte da minha atenção a esta histórica visita, pelos três motivos que seguidamente enunciarei:

Razão um: ser Católico
Razão dois: Ser um admirador do Papa Francisco
Razão três: Curiosidade relativamente à complexa missão da Força Aérea Portuguesa nesta histórica visita.
Quanto à primeira razão que se prende com o catolicismo, não existem dúvidas relativamente ao direcionamento espiritual do povo Português. As imagens dos peregrinos, a massa humana no Santuário, a fé espelhado nos rostos, é suficientemente elucidativa, dispensando pois outras palavras.
A segunda razão que me leva a admirar o Papa Francisco fica hoje mais alicerçada tendo em conta as imagens que milhões já viram e que valem por mil palavras. Francisco é incontestavelmente um líder do mundo, um homem simples que tem na génese o bem comum, a paz e o bem-estar da humanidade.
Finalmente e quanto à Força Aérea Portuguesa a que me ligam trinta e seis anos de serviço, não podia ter cumprido melhor esta missão de paz que lhe foi atribuída.


Foi um regalo ver todas as infraestruturas da base limpas, arrumadas e pintadas. Foi extraordinário perceber o planeamento e organização de todo o protocolo para receber para além de vários ministros dois chefes de estado, sendo um deles o Chefe da Igreja Católica.
Um almoço protocolar antes da chegada de Francisco onde estavam os mais altos dignatários da Nação. Guardas de honra, banda de música coral militar, preparação da sala de briefing para receber o Papa e o nosso Presidente,
A singeleza briosa da capela da base onde o Papa rezou. A forma organizada com que Francisco percorreu alguns espaços da Base onde os militares e suas famílias o acolheram.
A recepção do avião comercial que transportou Sua Santidade, a parelha de dois caças F16 que fez a protocolar protecão desde que o avião de Francisco entrou no nosso espaço aéreo. Os três helicópteros ALIII que tinham missões bem importantes em termos de segurança e de apoio à comunicação, para não falar daquela aeronave fabulosa EH101 que transportou sua santidade e demais elementos da comitiva.
Foi bom de ver!
O Senhor Comandante da BA5 um jovem Coronel, cumpriu na perfeição todas as orientações superiormente emanadas.
Os Portugueses tiveram oportunidade de ver hoje nas televisões, que a Força Aérea Portuguesa para além de formar pilotos para cumprir a sua missão primária, forma homens e mulheres que estão habilitados a cumprir qualquer missão.
Na Base Aérea 5 em Monte Real onde tudo isto aconteceu, está sediada uma esquadra os «Falcões» que tem por lema, “GUERRA OU PAZ TANTO NOS FAZ».
Hoje em tempo de paz, provou-se que assim é.
Obrigado camaradas!


sexta-feira, 12 de maio de 2017

O COMBATENTE

O dia estava sufocante.
A temperatura oscilava os 42 graus, com uma percentagem de humidade que afligia os pulmões daquele grupo de homens que avançavam de nervos tensos através do emaranhado da floresta tropical da Guiné.

Tinha por missão o grupo de “Comandos” fazer a ligação com outro grupo de combate, o 7 º. Destacamento de Fuzileiros Especiais. Deste grupo fazia parte um rijo ribatejano “borda de água,” de seu nome António Manuel Vassalo Miranda, com o posto de Furriel Miliciano e que tinha por incumbência o comando da primeira secção de assalto e choque. Homem destemido, nunca levara a sério os horrores da guerra ou se importara com as vicissitudes de uma vida errante, em que se sabe que se parte para a fogueira mas não se tem a certeza do regresso. Para ele, morrer e viver era-lhe indiferente.

No mais aceso da refrega reagia friamente: começava por acender um cigarro, ajeitava  o “boné à legionário”, molhava o polegar na língua e acariciava docemente a G-3; depois , era um autentico leão, nem o ribombar das granadas, os silvos das balas os gritos dos moribundos o desviavam do sua determinação: MATAR.
Arrepiados, os companheiros e até homens sobre o seu comando diziam que o Furriel era “afilhado de Deus”. No entanto este homem afirmava-se ateu convicto.
Interpretara a Bíblia a seu modo e não havia argumentos, por mais válidos, que o fizessem abalar quanto às suas teses. Contestava, blasfemava e ironizava palavra de DEUS...”Ainda um dia engolirás tudo o que dizes”, ter-lhe-á dito um amigo, ao que ele retorquía, “Estás louco homem. Como posso eu acreditar em milagres em pleno século XX”- respondia com tom sarcástico.
Qualquer doutrina ou acção que revelasse opressão, falta de civismo ou injustiça era para ele era suficiente para proclamar bem alto todo o seu protesto e houve até alturas em que entrou em rixas na defesa de oprimidos. Mas este “Cavaleiro Andante” nunca era molestado pelos organismos que defendiam mais ou menos os opressores. Inclusivamente numa altura em que a disciplina militar era rígida, ele que, foi tão bom combatente como mau militar, nunca teve problemas. Nem quando o sentaram no banco dos réus de onde saiu ilibado de qualquer culpa e com passagem marcada no primeiro avião da FAP para um bem merecido repouso junto às margens do seu adorado Tejo.

Que estranho poder parecia olhar para esta alma tão contraditória?
E naquele dia algo sucedeu, terrifico, grandioso. Só ele viveu este segundo...essa eternidade!
Pelo meio-dia o Grupo de “Comandos” chegou perto de uma clareira onde se travava renhido combate entre os terroristas e o 7º. Destacamento de Fuzileiros. Miranda desde a noite anterior que vinha sofrendo de crises palustre. Nessa manhã durante um desses ataques havia desmaiado. Recusava-se a ser evacuado. Queria estar presente para acompanhar aqueles que nele confiavam, além disso, ele tinha sem saber um encontro marcado. E não podia faltar.

À aproximação dos reforços que acudiam aos sitiados Fuzileiros os inimigos manobraram de forma a deixarem-nos penetrar no círculo. Porém perante o perigo o espírito combativo do furriel sobrepôs-se às sezões e ei-lo de novo à frente explorando o caminho, atento ao capim partido, ao avançar tranquilo ou aflito das aves, ao movimento desusado dos macacos, enfim, indícios que de um verdadeiro guerrilheiro não deve menosprezar, para a localização de forças inimigas.
O caminho estendia-se sob uma abóbada de vegetação que projectava uma convidativa sombra fresca para aqueles pobres antes desidratados até aos ossos. Mas estranhamente no subconsciente do furriel Miranda acudiu-lhe um frio de morte. Algo lhe dizia que naquele túnel ameaça de mortal o aguardava. Parou.

O comandante reuniu-se-lhe. O semblante do furriel estava estranhamente sombrio,- “ porque paramos?” - “Vejo a morte à entrada do túnel, meu alferes”.
-Estranhou o comandante semelhante resposta, vindo de quem vinha.
Não era natural. “Morte?”- pensou o alferes “Deve ser das sezões. Vou substitui-lo.”

Tentou fazê-lo mas o furriel opôs-se, ele via, mesmo no meio do túnel sombrio, uma figura negra pesada, duas mãos descarnadas abertas em cruz, e uma caveira branca de onde saia um sorriso tétrico: por entre os amarelados dentes uma voz melodiosa sussurrava...”Venham, meus filhos...Venham”.
O ambiente estava silencioso, denso. Miranda julga ouvir as respirações, não sabia se da morte ou dos inimigos emboscados ao longo do túnel. Lá no céu dois abutres voavam em círculo. De súbito algo faz desviar os olhos cansados e doentios do furriel para um objecto que por uma fracção de segundos brilhou a alguns metros, sobre o lado direito. O cérebro, até aí paralisado pela febre ou pela estranha imagem começou a trabalhar. Aproximou-se, era um invólucro de uma “G3”. Pegou-lhe.Ainda estava quente. Olhou em frente. Mais cápsulas. Segui-lhes o rasto até desembocar numa clareira.

Não havia dúvidas. Os fuzileiros deviam estar algures do outro lado. Voltou à picada. Olhou para o túnel. Lá estava a mesma figura, o mesmo mistério. Transmitiu rapidamente a sua descoberta ao alferes. Todos decidiram sair da Estrada. Miranda tornou a olhar para o “ fantasma”. Um riso macabro, e a estranha visão desapareceu “Devo estar louco”!

Quando uma pequena força chegou junto à orla foi decidido atravessa-la. Formando um losango de 15 homens encetaram a travessia.
Ainda não haviam decorridos uns 40 metros quando rebenta a fuzilaria endemoninhada.
Apanhados de surpresa os "Comandos" precipitaram-se em todas as direcções na ânsia de fugirem aquele diluvio de morte. À frente do Furriel Miranda surgiu uma pequena vala que não tinha mais e 30 cm de profundidade. Mergulhou por ela, e decididamente abriu fogo na esperança de poder cobrir a fuga dos seus camaradas. Primeiro os outros, depois ele.

Sendo o único que respondia aos ataques dos terroristas, estes tomaram-no por alvo e concentraram todo o seu  fogo sobre ele. Depressa os cinco carregadores se esgotaram. Mais de duas horas ficou para ali perdido. Os companheiros na ânsia de o poderem salvar lançaram fogo rasteiro ao capim que por acção do vento correu célere para ele. Sentindo o crepitar das chamas, voltou a cabeça. A hora de sair do buraco chegara. Olhou novamente para a floresta e sua respiração ficou suspensa. Mesmo no eixo da vala avançava inexoravelmente  e arrepiante uma rajada.Sabe-se que é praticamente impossível manter uma longa  rajada de arma pesada no enfiamento do cano e esta rajada vinha simetricamente pelo centro da vala, mais de 40 metros. As balas ricocheteavam e explodiam. A valeta era demasiadamente estreita para poder desviar o corpo. As balas aproximavam-se vitoriosas. Iriam cortar a meio o corpo do soldado?

Dez, cinco metros.....Miranda olhava hipnotizado. De repente estendeu os braços como que a defender a cabeça. Contraiu-se e gritou: MEU DEUS , SALVA-ME...MÃEEE

E então perante os olhos cerrados, ouviu uma VOZ em tom inefável : NÃO TENHAS MEDO MEU FILHO.

Uma paz imensa invadiu-o. Descontraiu-se. Abriu os olhos. O suor queimou-os. Reabriu-os olhou em volta. Estava terrivelmente esgotado. A escassos centímetros da sua cabeça a rajada desviara-se e rasgara-lhe o camuflado ao longo do tronco e das pernas. Nem uma única arranhadela. E eram balas explosivas! Ergueu os olhos ao céu. Nunca o céu lhe parecera tão limpo e azul:"Obrigado meu Deus. Eu não to mereci.Só hoje compreendo. Obrigado"

Vassalo Miranda
Por mais estranho que pareça, neste mesmo dia em Vila Franca de Xira, a mãe deste combatente teve a sensação angustiante do milagre que a milhares de quilómetros se havia dado.


Especial agradecimento a Vassalo Miranda em autorizar este relato e na cedência das fotos.







Compilado, redigido e montado por:
Aníbal de Oliveira

sexta-feira, 5 de maio de 2017

NECESSIDADE DO "GUERREIRO" DESCONTRAIR.




Andava na minha mente e após o rebuçadinho que o meu filhote João Sousa me enviou, com a conivência do grande irmão Pedro Garcia, vou contar a segunda parte da minha primeira ida a N´Riquinha - leste de Angola também chamada de “Terras do fim do Mundo”. 
Acompanhava-me naquela véspera de Natal de 1969, o cabo Costa OPC, de cor negra e de São Tomé, que ia render um cabo OPC salvo erro Cordeiro, branco, que era natural de Moçambique, da 1ª. incorporação de 66 se não me engano. Eu ia substituir o João Gomes MRAD, do Porto, da 1ª. de 67. Foi gerente do bar da malta – Clube de Especialistas – na BA9. Estivemos os quatro uma semana juntos para a passagem de testemunho, ficando eu e o Costa na perspectiva de por lá ficar-mos 2 meses.
Os "quatro"



Como o Gomes tinha combinado comigo criar um porco que ele me tinha lá deixado, e quando voltasse a rendição ficava lá mais uma semana para a matança do porco, o que veio acontecer, por lá fiquei esse tempo ou talvez mais. 
Costa e Ferreira

O Costa OPC, se já não era muito certo da cabeça ali pirou, e não foi preciso muito tempo. Começou a enviar mensagens zulos para o comandante da 2ª. Região Aérea a pedir o alcatroamento da pista, insecticida de preferência marca “Baygom”, papel higiénico “Renova”, gel de banho e não sei o que mais de momento.
Escusado será dizer que o Costa foi substituído, voltou para lá o tal moçambicano dar conhecimentos ao Martins “algarvio” e ambos tínhamos o nome de guerra “o massa”. Lembro-me, que o Costa levou uma porrada e foi para Henrique de Carvalho.
Para terminar este episódio, recordo que a matança do porco impediu que eu fosse ao Rivungo “clandestinamente” nadar, e eram só 10 horas de Berliet. Dessa vez uma mina rebentou com a coitada da camioneta, felizmente sem danos pessoais, mas quando se foi buscar os destroços dizia-me o meu habitual companheiro um 2º. sargento muito comovido: "vês Ferreira, aonde tu costumavas ir está aqui um buraco dos estilhaços, não escapavas!"
Como a sorte de um homem é escapar ainda por cá estou, chateando uns, chateando-me a mim outros.
Com a promessa de voltar com outros episódios despeço-me de todos em geral e em particular saudades para o meu “filhinho” João Sousa, que combateu cá mais para norte e para o meu “irmão” Pedro Garcia, que pensava estar sempre na alcatifa na 2ª. RA e também foi parar ao mato lá para os lados de Santa Eulália, Zala, Quibage, Quipedro e outros locais, que eu viria a conhecer quando para nós de Luanda acabou o Leste e viemos fazer os destacamentos para Norte.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

AERONAVES: GUIA PRÁTICO PARA JORNALISTAS


Enviei isto para a imprensa especializada e mandei cópias para a imprensa "de merda" , mas quero que os meus amigos leiam já em primeira mão. 
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Em exclusivo mundial , eis o manual para cobrir acidentes com aeronaves, usado numa conhecida universidade de jornalismo. Qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade.
Isto dos aviões só interessa e vende papel quando há mortos e tragédias. Feridos e incêndios. Atrasos e cancelamentos nos vôos ou atentados terroristas. É sempre uma azáfama nas redacções de alguns jornais, quando acontece um acidente com um avião, ou alguém liga a dizer que foi arrastado à força para fora de um avião.

Montar a tenda
Após uma semana a escrever sobre Bola e socialites , a pôr gatinhos no Facebook e a fazer pesquisas jornalísticas em sites pornográficos, eis que surge a hipótese de fazer jornalismo a sério. Quem sabe uma edição extra! Imediatamente começa tudo à cabeçada e aos encontrões à procura das chaves do Opel Corsa e dos cartões de memória da máquina fotográfica e a ver no mapa onde fica o local do acidente em alguidares de cima. O editor grita de dentro do seu gabinete:
“Tragam-me mortos. E fogo. Se possível imagens com coisas a arder”.Já com a equipa de reportagem no carro, ainda grita da janela: “E entrevistem populares. Desdentados e gordos de bigode farfalhudo. E se tiverem vestido t-shirts com mangas cavas e chinelos ainda melhor...”E assim se monta a tenda para cobrir a “notícia”. Chega-se ao local e toca a procurar mortos, passageiros indignados, fogo, e tudo o que houver no catálogo da desgraça.
Encher chouriços
Por vezes não existem vítimas nem danos materiais. Foi apenas um avião que aterrou numa estrada secundária por falta de gasolina. Mas não vamos deixar que um pequeno promenor como este impeça de vender papel de embrulhar peixe. Sempre podemos escrever: 
“ Ultraleve despenha-se em auto-estrada movimentada causando o caos”. Ou talvez: “Avioneta alegadamente sabotada por terroristas em pleno vôo despenha-se tragicamente sobre dezenas de automóveis”.“Avioneta faz pirouetas e cai em cima de automóveis”“Foi um milagre não ter morrido gente”As hipóteses são infinitas, e ao alcance de qualquer miúdo da escola primária. Não percamos a esperança. Qualquer não-notícia pode ser transformada em notícia.

Definição do tipo de aeronave
Tal como em qualquer redacção de um miúdo da escola primária, não importa muito o rigor acerca do tipo de aeronave. Se tiver uma hélice algures, pode ser sempre chamada seguramente de ultraleve, ou de avioneta. Aconselha-se fortemente o jornalista principiante ou desleixado, ou vindo da redacção de assuntos da Bola, a cingir-se exclusivamente a estes termos para não dar barraca. Como distinguir um termo do outro? 
Não é preciso grande rigor. É como ir à praça e escolher duas alfaces, compara-se mais ou menos o tamanho uma da outra e leva-se a mais barata. Ou usa-se uma moeda. Ou dois palitos. Deixemos a designação do tipo de aeronaves para os media mais respeitados e idóneos, que poderão usar termos mais apropriados como “ avião”, “aeronave” ou “ aparelho”. Para um jornal que vai servir para embrulhar peixe amanhâ, ou ser cortado às tiras para um WC de umas obras, ultraleve ou avioneta dá e sobra. Mas em exclusivo mundial, para jornalistas preguiçosos e pouco motivados, ou tirados à pressa da redação dos assuntos da Bola eis, meramente a título de curiosidade, os termos correctos usados por media idóneos , respeitados e competentes: 

Avião/ aeronave ultraleve ( aparelho até 450 Kg de PB à descolagem. Exemplo Skyranger 912) 


Avião/ aeronave monomotor ( aparelho com mais de 450 Kg de PB à descolagem. Exemplo Cessna)


Avião/ aeronave bimotor ( aparelho com dois motores. Exemplo C-295, Piper Seneca) 


Avião/ aeronave quadrimotor ( aparelho com quatro motores a hélice. Exemplo C-130) 


Jacto militar ( Termo habitual independentemente do tipo ou número de motores . Exemplo F-16, B-52)


Jacto executivo ( Pequeno jacto de passageiros, exemplo Falcon, Learjet) 


Jacto comercial de Passageiros ( Termo habitual para qualquer número de motores) 


Jacto comercial de carga, ou “ cargueiro” ( Igual ao de passageiros) 

Autogiro ( aeronave de rotor não propulsionado) 
Não parece haver grande confusão com os helicópteros, que serão sempre helicópteros, seja um Schweiser ou um Apache. O termo “ avioneta” não é utilizado na imprensa idónea.


Entrevistar os populares
Num acidente com aviões que fará hoje a abertura de todos os telejornais e que amanhã será capa de todos os jornais , não se pode perder tempo a procurar pessoas com opinião avalizada e idóneas para entrevistar. Não há cá tempo para isso. Tem de se arranjar rapidamente testemunhas oculares do acidente. Vamos estar em directo toda a noite. Isto se não houver futebol. O modo como viram o acidente ou a distância a que estavam do mesmo não interessa muito. O tempo está a contar, e por isso algo vago como “ ouvi um barulho e vim a correr cá fora e só vi fumo” serve muito bem para encher chouriços em directo por três ou quatro minutos. Taxistas e donos de café dão sempre uma aura de profissionalismo.
É imperativo procurar por eles. Nunca é demais sublinhar a importância de populares

desmazelados por barbear com camisas de clubes de futebol e chinelos e com putos a tirar macacos do nariz por trás, que garantem que o telespectador se identifique imediatamente com a situação, e deseje também lá estar. Velhotas bisbilhoteiras de bibe (e claro, chinelos) são também de procurar e convidar para um depoimento em directo. (“ Sim, paxou além por xima da casa da ti Gertrudes um avião dexes todo escangalhado”) Não importa muito recolher os nomes dos entrevistados, pode-se sempre aldrabar na montagem, ou escrever “ José, testemunha”. Seja como fôr, por baixo estará a passar em rodapé os resultados do Portimonense / Rio-Ave. Ninguém vai notar.

Autoridades
As autoridades devem sempre ser convidadas para uma entrevista. Não deverá haver problema em encontrar autoridades, pois em redor de um acidente haverá sempre autoridades a dar com um pau. Não só polícia como protecção civil, bombeiros ou membros da autarquia. Basta percorrer as fileiras intermináveis de carros com luzes no tejadilho e procurar alguém com um colete reflector com palavras escritas nas costas. Será seguramente uma autoridade. Existe uma grande preferência do público sobretudo em ouvir falar responsáveis da policia. Porque dá impressão que quanto mais sobem na hierarquia, mais necessidade têm de falar com palavras caras, gerando momentos lúdicos de grande interesse. Por exemplo, para descrever uma simples frase como
“O avião caíu por volta das 17 horas e chegámos aqui cerca das 17.30, isolando o local “, o oficial de cabelo cortado à militar, chapéu sobre os olhos, óculos escuros postos às oito da noite e com os ombros cheios de riscos amarelos dirá: “Cerca das 17 horas fomos alertados via telefone para a verificação de um despenhamento de uma aeronave neste local ao que prontamente os efectivos da nossa força policial se deslocaram ao local, tendo estado aqui presentes por volta das 17 horas e trinta minutos tendo verificado por conseguinte o efectivo despenhamento e a destruição de uma aeronave de porte ultraleve ligeira de passageiros, tendo os nossos efectivos procedido imediatamente á circunscrição e isolamento da área de modo a evitar o ingresso e a incursão de curiosos no perímetro definido pelo acidente “. Responsáveis de bombeiros também costumam proporcionar momentos únicos de verborreia enfolada. Se não houver responsáveis policiais, procure responsáveis de bombeiros. Ignorar autarcas, com os seus discursos políticos e enfadonhos a culpar a falta de verba e as outras forças políticas pelo acidente.

Alegadamente 
Usem e abusem do alegadamente. O alegadamente cobre tudo e valida tudo. É uma espécie de tinta contra a ferrugem. Podem-se dizer as maiores barbaridades e factos não confirmados desde que polvilhados amiúde por “ alegadamente”. Reparem:“O ultraleve de carga terá alegadamente explodido em vôo após, alegadamente o piloto ter ligado o piloto automático e alegadamente, ter ido beber champanhe com a hospedeira”. “O ultraleve militar de passageiros terá alegadamente sido atacado por mísseis terra ar lançados alegadamente de uma avioneta da marinha”.
Caso nada disto se verifique, e uma vez reposta a verdade por outros media, facilmente se consegue descalçar a bota. “Alegadamente”, é portanto uma boa frase para principiantes, que lhes dá sempre um ar de profissionais maduros. A não esquecer.Não esquecer também que o objectivo principal de notícias sobre Aviação é, além de vender papel e publicidade, cumprir o papel social de informar e prevenir o cidadão.Instigar o medo na população sobre esta coisa perigosa que é a Aviação. De afastar as pessoas dos aeroportos e das escolas de pilotagem, e de dirigir o entusiasmo para áreas seguras como o futebol ou os reality shows. Cada popular que nos aparece na rua, no supermercado e nos diz “ai que horror eu vi ontem a sua reportagem, eu tenho muito medo de aviões “ é motivo de orgulho em ver o nosso trabalho reconhecido em prol da comunidade. Usar e abusar de imagens de casas destruídas ou a arder, estradas cortadas e ambulâncias. Não há necessidade de debruçar sobre quem vinha a bordo do avião, das suas capacidades ou das condições climatéricas no momento do acidente, nem que eles e as suas famílias foram dos que mais sofreram e vão sofrer com isto. Basta referir a eles como “ os ocupantes” no início da peça e pronto.

Nota Final
Por fim, e meramente como nota final sem importância , apenas como curiosidade e sugestão, porque não em tempos mortos na redação numa semana sem notícias, elaborar peças que celebrem o fascínio e a História da Aviação. Falar sobre Sacadura Cabral em vez do penalti do Mbantane . Sobre Bartolomeu de Gusmão ou Óscar Monteiro Torres. Carlos Bleck e Costa Macedo. Humberto Delgado. Sobre como voar foi tão importante para um viúvo realizar um sonho de menino nos últimos anos da sua Vida, ou para colmatar a perda da sua companheira, ou foi determinante para um paraplégico redescobrir o prazer de viver. Sobre obras de caridade que levam produtos a áreas remotas usando pequenos aviões, os tais “perigosos aviões” dos desastres de abertura de telejornal. Sobre feitos e salvamentos levados a cabo pela nossa Força Aérea. Sobre a paixão escondida de muitas das figuras da nossa praça acerca da Aviação. Os fantásticos eventos que decorrem no país de Norte a Sul durante todo o ano. O esforço de empresas pequenas que com a prata da casa lançam serviços regionais e vôos turísticos. Sobre como seria o nosso Mundo se não existisse a Aviação. As hipóteses seriam imensas. Mas infelizmente a Aviação não está sozinha neste desprezo dos "merdia". Infelizmente, todos sabemos que a próxima vez que a Aviação fôr tema de notícia em Portugal será certamente devido a um acidente ou a uma polémica, relatado por um tablóide ou por uma galinha esganiçada a cacarejar em directo.Tristemente, nesta sociedade inundada de média mas pouco esclarecida onde a notícia só acontece no campo da Bola ou na tragédia, interessa mais que um avião regresse ao solo com tragédia ou polémica a bordo, do que com uma causa justa ou com uma notícia inspiradora.

Texto de Mike Silva









Imagens, pesquisa e inserção de A. Neves

terça-feira, 25 de abril de 2017

25 DE ABRIL DE 1974


Faz hoje 43 anos (quarenta e três anos), que Salgueiro Maia à frente de uma coluna motorizada proveniente de Santarém, capital do meu distrito, de megafone em punho, G3 ao ombro dando o corpo às balas, provocou frente ao quartel do Carmo em Lisboa, a queda de um regime que durante décadas oprimiu um povo, retirando-lhe os mais elementares direitos de cidadania.
Como diria Sophia de Mello Breyner,«Era a madrugada que esperávamos,num dia inteiro e limpo,onde emergíamos da noite e do silencio,livres para habitarmos a substancia do tempo.»
A Imagem de Digo, um menino de caracóis loiros esforçando-se para colocar um cravo vermelho numa espingarda de Abril, correu mundo.
Esta imagem simbolizou e simboliza a essência e benevolência da nossa exemplar revolução.
Também eu como centenas de milhares de jovens Portugueses sofri as agruras da guerra que o regime de então teimava em manter.
Naquela madrugada de Abril, encontrava-me algures no leste de Angola, onde mercê das vicissitudes do processo tive que permanecer mais alguns meses.
Regressado ao meu país, ao país novo, encontrei uma sociedade sedenta, sedenta de dinâmica.
Tudo tinha mudado!
Os hábitos, as regras, os princípios, notando-se um clima reivindicativo próprio de quem nunca nada teve e que momentaneamente tudo queria ter.
Foram tempos difíceis e conturbados!
O clima social agudizou-se, não sendo poucas as vezes em que estivemos no limiar do confronto com todas as consequências daí resultantes.
Com o passar do tempo o «fruto revolucionário» foi amadurecendo! A vida as vivências, foram ganhando raízes no mundo novo.
A democracia começava a dar passos seguros em frente!
Os cidadãos começavam a ser tolerantes!
A democracia instalava-se!
A democracia instalou-se!
Passados 43 anos somos o que somos!
Somos um país integrado no conjunto das nações europeias, vivendo o mais aproximadamente possível o modo e o tempo semelhante aos povos civilizados do mundo.
O Nosso país já não é aquele:
Que respira sem garganta,
Que chora quando tem frio
E não tem sol quando canta.
ABRIL VALEU A PENA!



Por:



sábado, 22 de abril de 2017

"ABONADELA" EM MUEDA




Dia 13 de Março de 1972.
Último dia do meu primeiro destacamento; esquadra: “Índios”; Mueda, Planalto dos Macondes, Cabo Delgado- Moçambique
O Sol, depois de uma “lânguida e demorada espreguiçadela” e após uma noite quente e húmida, mas calma, preparava-se para despontar no horizonte.
Respirava-se um ar absolutamente contaminado pelos gases de escape expelidos pelos motores das aeronaves, a rodar, ao ralenti. 
Na placa do AM-51, o frenesim próprio que, inevitavelmente, se gera nos preparativos de saída, destinados ao transporte de militares – combatentes, para mais uma operação, (ataque a uma base “turra”, helitransportada), misturava-se com o ruído inconfundível, dos rotores dos “hélis”- Alouette III, numa simbiose perfeita com o silvo, “rouco” e estridente das turbinas do, sempre fiel, Artouste IIIB e desafinavam com o “roncar soberbo” daqueles nove cilindros em estrela, em procedimentos de “ponto fixo”, dos velhos, mas sempre leais T6, Harvard.
Por determinação de alguém, com poderes e competência para o efeito, foram nos helicópteros a operar em Mueda, montadas metralhadoras ligeiras MG, em bipé e municiadas com quatro ou cinco caixas de munições.
Ordem para descolar e, …“lá vamos; cantando e rindo, levados, levados sim…” , com destino ao local onde se encontravam concentradas as tropas que iriam fazer o “assalto à base turra”, (julgo que a base Gungunhana… mais uma vez!).
Terminado o embarque para a primeira “leva”, (num total de três), com cinco militares-combatentes, lá tomei eu a posição como operador/atirador da MG que, montada à retaguarda da cadeira do piloto e com a porta traseira aberta, permitia disparar, em rajada, no “varrimento” da zona, no caso, um descampado na periferia de uma “machamba turra, nas proximidades do objectivo, garantindo a protecção e segurança, ao desembarque da “tropa”.
Descolagem; percurso relativamente curto, voo rasante às copas das árvores, estacionário a baixa altura, rajadas de MG à zona e, à ordem, desembarque efectuado sem problemas, tal como com os outros “zingarelhos”, (cinco ou seis; já não recordo).
Na parte final do percurso da primeira “leva”, tive a sensação de ter avistado palhotas, á direita da rota seguida.
Como não tive a certeza, memorizei o local e aguardei para, na “viagem” seguinte, dedicar especial atenção e avisar o piloto que, se a memória não me atraiçoa, seria um alferes miliciano, piloto, militar que não me inspirava grande confiança, nas “lides piloteiras”, de resto, cedo confirmadas, pelo seu afastamento dos hélis e transferência, creio que, para os Dakotas.
Repetidos os procedimentos da primeira “leva”, lá vamos nós, de novo, a caminho do local de largada.



Talvez porque tivesse havido um ligeiro desvio da rota, não consegui verificar e confirmar as suspeitas da existência das ditas palhotas que, a existirem, teriam enorme probabilidade de fazerem parte do complexo militar da “base turra”, em objectivo. 
De novo, chegados ao destino, em aparente normalidade de voo, tal como no anterior, também a baixa altura do solo, o piloto preparava a estabilização do estacionário, quando o helicóptero, de safanão, começa a rodar, em torno do seu eixo vertical. Rapidamente, percebi que ficámos sem comando do rotor de cauda, (anti-binário). 
De imediato, o “héli” ainda não tinha girado meia volta, já o piloto, sem qualquer hesitação, leva o manche de passo geral ao fundo e faz uma aterragem de emergência violenta.
Enquanto se executam os procedimentos de desligar o motor e imobilizar o rotor principal, já os militares/combatentes se encontram apeados, em posição de protecção ao helicóptero. Imediatamente nos afastámos, ligeiramente, do local e corremos para um espaço, onde a aterragem de outro “heli” fosse possível, na esperança de que, quem voava na retaguarda se tivesse apercebido da situação e nos viesse recuperar. Poucos minutos após o “incidente”, surge o “anjo da guarda”, o héli” que nos sucedia e que, tendo presenciado os factos, nos recolhe. Já refeito do “cagaço”, reparo que o mecânico do helicóptero que nos recupera, é o Cabo especialista/MMA, Leitão, o ”sapito, assim tratado e acarinhado pelos “besuntas” e noto-lhe vestígios de sangue na testa. Ao meu gesto “inquiridor”, com toda aquela calma do mundo, que o caracterizava, passa a mão na testa, sobre o arranhão ligeiro, enquanto aponta para um vidro da frente/direita, onde se via um buraco de bala e parte do “vidro” estilhaçado e responde: “foi o que ainda sobrou da tua “abonadela”.
Regressados a Mueda, cumpriu-se, mais uma vez a praxe, com bar do “clube dos especialistas” aberto, ao pessoal da “besuntice”, por conta cá do “felizardo”.
O helicóptero foi atingido, na cauda, com três tiros, um dos quais fez rebentar o cabo de comando do rotor de cauda; outro provocou danos numa chumaceira do veio de transmissão traseiro. O terceiro só danificou blindagens.
Da aterragem resultaram danos no trem e nas blindagens inferiores.
Uma equipa de mecânicos, deslocou-se ao local e conseguiu remediar as avarias, permitindo que a “MÁQUINA” regressasse à Base pelos seus próprios meios. 

Joaquim de Campos Pinheiro
1º CB MMA/Hélis – “Índio”
... foi assim há 45 anos!



sábado, 15 de abril de 2017

MEMÓRIAS DE HENRIQUE DE CARVALHO E CAZOMBO


- Dedicado ao piloto Miguel Abecassis -

Apenas para situar as coisas, fui cabo meteorologista na incorporação de Janeiro de 68, e estive em Angola entre Maio de 70 e Junho de 72. 
Lá longe, em Henrique de Carvalho dei de caras com um vizinho de Lisboa, do meu bairro (do Restelo), mais ou menos da minha idade. Era o Miguel Abecasis, um dos filhos mais novos de um rancho grande (julgo que 10 ou à volta disso). O bairro do Restelo é um conjunto de 400 casas mandadas construir mesmo no final dos anos 40, penso que os primeiros habitantes (como a minha família) instalaram-se lá em 52 ou 53. Todas as casas têm generosos quintais, para delírio da miudagem (eu tinha 4 ou 5 anos), e nós circulávamos entre os quintais, e eu, também o mais novo de sete, brincava com o Miguel, as coisas da altura, a macaca (ou avião, como lhe chamávamos), o berlinde, as corridas de carrinhos Dinky Toys ou de caricas com as imagens de futebolistas nos beirais dos passeios, e descidas de carrinhos de rolamentos. 
Passaram os anos e perdemos o rasto um do outro, a vida levou-nos para trajectos diferentes, menos a opção pela Força Aérea. Comecei por encontrá-lo em Henrique de Carvalho, e algum tempo depois, no Cazombo. 
O Miguel Abecasis era um bonitaço e fazia grandes estragos entre as meninas de Henrique de Carvalho e entre as filhas dos oficiais, era aventureiro (é o espírito de piloto), sedutor, muito simpático (embora reservado) e cativava as pessoas. 
Dei com ele em Julho / Agosto de 70 no Cazombo.




Agora vou contar a história tal como me lembro, mas é possível que, passados 46 anos, estejam a passar umas nuvens na memória. 

Um dia, o Miguel estava a entrar para um T6, e eu a olhar enquanto ele subia a escadinha de ferro, diz ele: Queres vir? E eu, meio atrapalhado, nunca tinha andado “naquilo”, mas na alegria dos meus 21 anos da altura, disse que sim. 
Não me recordo que tenha sido feito qualquer registo da minha presença naquele voo, simplesmente subi a escadinha também, e instalei-me no banco de trás, um miúdo excitado na maior aventura da sua vida… 
O Miguel disse-me que ia à caça. Perguntei-lhe se era caça de “turras”, ele disse-me que não, era caça mesmo. Fiquei a meditar e a imaginar caça em Africa, pacaças, palancas, coisas assim. 
E levantámos. Em vez de seguir numa direcção em linha reta afastando-se do aeródromo, dei com ele a tentar assustar-me na brincadeira (e parcialmente conseguiu) a fazer algumas passagens sobre a pista, primeiro faz um tonneau (fantástica experiência) depois aproximou-se do chão e começou a fazer um voo rasante, a uns 6 ou 7 metros do chão, em direccção a duas antenas (ao lado da pista). Eram duas varas de ferro afastadas uns 10 metros uma da outra, com uns 15 metros de altura, (que naquela altura não tinham nenhum cabo ou antena a uni-las). E eu a ver a aproximação e a pensar, “o gajo é doido, vamos bater com uma asa numa das varas, caraças”. Bom, no último momento virou o manche (ou mancho?) e passou as asas de horizontal a vertical, e passou alegremente entre as duas varas ! Ufffff….e eu a gritar-lhe “ganda doido, olha que eu quero voltar a Lisboa”!!! Mas acho que ele não ouviu, o barulho dentro da carlinga de um T6 é enorme… 
Então afastámo-nos para norte, (disse-me no fim do voo que tínhamos ido até meio caminho entre o Cazombo e a fronteira norte do quadrado do Cazombo) a uns 50 Kms do aeródromo. Só percebi que tínhamos chegado onde ele queria quando desceu e fez duas ou três voltas até a uns 100 metros de altitude, em círculos, e depois subiu novamente e mete o avião quase a pique, (aí acagacei-me…) e eis que começa a disparar as metralhadoras das asas. Espectáculo!!! Aquilo fazia estremecer o avião com alguma violência, e visto a partir do meu lugar atrás do piloto, tinha a imagem nítida do tracejado das balas em “V” até ao solo (senti-me num avião do major Alvega dos livros de quadradinhos), e lá em baixo começo a ver uma manada de animais (soube depois que eram vacas de mato) a cair, umas a seguir às outras! Fez mais uma passagem a disparar e depois subiu, colocando-se, em círculos, aí a uns 300 a 500 metros de altitude. Não percebi para quê andar ali às voltas, até que vejo um Alouette III por baixo de nós a aproximar-se do chão e a pousar junto às vacas caídas, mortas (as sobreviventes debandaram, naturalmente). Aquilo demorou bem mais de meia hora, lá de cima eu não percebia bem o que se passava, só quando voltámos ao Cazombo é que o Miguel me explicou: Tínhamos ficado aos círculos em voo relativamente baixo para indicar ao heli o sítio preciso onde estava o produto da caça, e do heli desceu um mecânico (que tinha sido talhante na vida civil), e com uma faquinha muito afiada, de lâmina curva, separou das carcaças aquilo que tinha mais “chicha”, mais carne, as cochas e os lombos, e encheu o heli até ao limite possível de carga. 
Ao jantar desse dia, e nos dias seguintes o rancho melhorou substancialmente entre o pessoal da FAP… 

Junto duas fotos do Miguel Abecasis (é o que está à civil a ler uma revista) e de mim (fardado, de óculos, à direita) numa carrinha que nos levava e trazia entre o AB4 e a cidade (Henrique de Carvalho). Lembro-me muito bem das caras dos outros presentes nas fotos, mas nomes….nicles !!! 
PS: O Miguel, infelizmente, já faleceu há anos, com uma complicação de várias maleitas graves. Era filho do General PILAV Krus Abecasis (também já falecido, em 2012, com 92 anos).

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sexta-feira, 7 de abril de 2017

A BASE AÉREA Nº6 MONTIJO / ALTERNÂNCIA A LISBOA


Parece já não haver dúvidas que a Base Aérea Nº6 (BA6) Montijo, Vai servir de apoio e alternativa ao Aeroporto General Humberto Delgado Lisboa, quase e ainda bem, a «rebentar pelas costuras”. Impõe-se pois uma solução que passará pela adaptação da BA6.Parece-me bem!
Ao contrário de outros megalómanos ou megalomanias de outros tempos, (construção de raiz de um novo aeroporto), o Governo decidiu e bem em meu entendimento, aproveitar as infraestruturas aeronáuticas da BA6 às portas de Lisboa, para solucionar um importante problema com uma incomensurável redução de custos.
Terão que acontecer múltiplos ajustamentos na BA6, cujos custos e ações serão incomparavelmente diferentes dos que a construção de um novo aeroporto exigiria.
Solucionada terá também que ser a coabitação entre os« sistemas de armas» da Força Aérea Portuguesa (FAP) a operar na BA6, com a nova filosofia e operação comercial.

Em minha modesta opinião, a Ex. Base Aérea nº.3-Tancos (BA3), completamente sub aproveitada em termos aeronáuticos, há mais de vinte anos, pois o Exército Português a quem foi entregue, nunca conseguiu dispor de nenhum meio aéreo, razão pela qual aquela infraestrutura lhe foi entregue.
Recorde-se que a BA3 foi entregue ao Exército aquando a grande remodelação das Forças Armadas em geral e da FAP em particular, também decorrente da saída dos Alemães da BA11-Beja.
A BA3 aparece neste contexto e como alguém já escreveu, como uma solução de «chave na mão”. O avião C130 em fim de ciclo, bem como a 295 aeronave moderna recentemente adquirida, podem operar sem qualquer limitação a partir da BA3.Igualmente poderá operar o KC390 se essa for a escolha para substituir o generoso «hércules».
Creio que os helicópteros Lynx MK95 da Marinha não causarão grandes incompatibilidades com o tráfego civil, bem como os Falcon 50 que operam normalmente a partir de Figo Maduro.
A Ida de duas aeronaves pesadas e multi funcionais para a Ex BA3, apresenta-se ainda benéfica tendo em conta a existência do polígono Militar de Tancos. O posicionamento da Brigada de Reação Rápida, o Regimento de Paraquedistas, a Engenharia Militar, bem como o Campo Militar de Santa Margarida, constituem motivos mais que suficientes para que a partir da BA3 as aeronaves de transporte aéreo tático e outras missões, possam ser sediadas na ex.BA3 Tancos.
Refira-se para além do que precede, que Tancos ao contrário de Montijo, não tem restrições de sobrevoo, podendo constituir privilégio para a manutenção de qualificação de tripulações, para além das normais missões de cariz operacional.
Falta na realidade equacionar a situação do ponto de vista operacional do helicóptero EH101,uma aeronave de inegável importância no contexto da busca e salvamento, que certamente a FAP não deixará de propor soluções.
O caminho está aberto, o rumo está traçado, a solução é boa, o castelo de Almourol vai de novo sentir os «pássaros de ferro» o país fica dotado por vários anos de capacidade de transporte aeronáutico, poupando muitos milhões.
As populações ribeirinhas e não só, daquela parte do Ribatejo, vão agradecer, pois a deslocação de meios e pessoas para a zona, trará certamente um novo incremento à economia local.
«EM FRENTE MARCHE»


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